quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Deixa pra lá

Deixa pra lá o que não é de cá
se cá não toca, dentro não afeta
deixa pra lá coração
sambando de lado
rodopiando ao violão
acende meu cigarro
esquenta a minha mão
deixa pra lá meu povo
agora mostra os dentes
não cerrados
desfila meu mestre sala
enche de luz minha porta bandeira
salve a passarela da vida
deixa pra lá passista.

Também humana por esses dias

Muitas misturas lá fora
não se irrite com meus sorrisos
sorria junto comigo!
Talvez chore, muitos choram escondido
e diante da luz do dia bravejam como leões famintos
sedentos pelo sangue alheio
deixem ela ir
dizem que precisa de paz
de espírito
anda oca por esses dias.
Eu escrevo apenas
não venha me julgar
o que vejo é o que é
mas às vezes eu confundo tudo
nada demais
também sou humana. 

sábado, 4 de agosto de 2012

O cheiro das palavras

O cheiro das palavras
perfume da fala
tão sutil
e ao mesmo tempo
penetrante.
Cheiro forte, suave
doce, acre, azedo
fétido, inodoro
do avesso.

Avesso aos teus erros
aos teus acertos.
Oh dual, mortal
quem me dera
num punhado de sol
dourar minh'alma
soltando palavras unas
que curam a dor.

Quanto ao espetáculo
do início do dia
as pétalas abrem
lágrimas secas
voltam a molhar
o brilho no olho
reflete o raio do horizonte
tão longe...
infinito
que posso tocar.

O perfume da rosa

Aquele cabelo ao vento
destoa com o cinza da cidade
assim como a flor do asfalto
mas nasce insistente a cada dia
a cada pétala de vida
um sorriso nu
um colo que protege
o teu beijo no vazio
alma e arame
na contramão do tempo
do vento que encontra o vestido
labirinto pro meu instinto
em que teu grito vibro
vem lua desnuda eu sua
tão estrela da vida sua
o raio cortou 
desde o céu até aqui
uma canção assim tocou
tanto sol
tanto calor
volta pra casa margarida
vestida de rosa 
tira teu espinho da espinha
da nuca tira o aço de cada dia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A mulher do espelho

A mulher em frente ao espelho, contemplava a si mesma como sendo a última e única criatura terrestre. O olhar olhava seus olhos, fixo, duro, cortante. O olhar era seu amante. Pintou de vermelho os lábios, queria imprimir sangue em sua boca, no qual o batom se fez passar por navalha. Balbuciou qualquer som monossilábico fazendo o sangue percorrer, entumecido na boca vermelha. Era boca e olhos, inteira era ela nessa dicotomia separada pelo nariz. Não se pode dizer se era bela, quão subjetiva é a beleza, mas afirmo que era plácida sua vênus mais íntima. O olho desceu ao encontro do ventre, e mais abaixo fitou o sexo que há muito não era amado. Sem pudor nem dor, tocou-se como uma pianista, entregue ao som de si mesma. Talvez o tempo passou por horas ou apenas num segundo, no qual durou até a eternidade mais efêmera de prazer. Alcançou os pés não com mãos, mas com o olhar, agora cravado no chão, ela se fez terra, do ventre até os pés sentiu as raízes penetrarem o profundo solo que não vemos. Gargalhou com seu sangue escancarado, face rubra, mãos úmidas. Precisava manter o controle, acendeu um cigarro, tragada após tragada, voltou a ser amarga, dona de si. O sangue coagulou, o olho vidrou, seu sexo não mais molhou as raízes de seus pés. De novo era ela a única criatura terrestre dentre as milhares que também são e não. Limpou de água o sangue, boca murcha. De água chorou um olho, apenas. Estava virando madeira porosa, dura e oca. Oh, o ar balançou seu cabelo, de novo viva, pôs-se a dançar. Entre um balançar e um sacudir ela virou-se de costas ao espelho e percebeu um novo mundo surgir, de solavanco foi tirada do seu centro, seu precioso egocentro. Queimou por dentro, derreteu de fogo, quebrou o espelho e nunca mais foi vista.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Entre

Na decida central de mim
partilho o pouco que há em mim
o pouco do pó que é meu
partícula que faz você
seu nó no meu ventre seu
sangue que escorre meu
fecunda a vida minha
coragem do peito seu
suor do teu rosto largo
sorriso largo
preenche o dia
solta noturna
escancara de sol sua lua.

domingo, 29 de julho de 2012

Natureza

No mar, no mato
cheirando água doce
chorando água salgada
lavando de mar a alma
banhando de rio a alma
vestida de verde a selva
protegida pelo azul da vida
no qual o amarelo brilha
entre brilhos de prata
vibram o calor e frio de cada dia.

Veneno e cura

Eu furo a melancolia escondida de outros Deuses, os que ainda dançam e voltam ao espetáculo das Deusas. Vou saborear cada arrepio enco...